O Homem e o Não-lugar: Análise do filme “O Terminal”.
*Por Roberto Wagner Urquiza
O homem se encontra diante do irracional. Sente em si o desejo de felicidade e de razão. O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo. Albert Camus (O mito de Sísifo, p.41).
O mundo contemporâneo, comprimindo cada vez mais o tempo e o espaço, tende a mergulhar o sujeito numa situação de constantes movimentações. O homem está afastado de referenciais fixos e estáveis, tem dificuldade de saber quem ele é realmente, vive no que o filósofo Gilles Lipovetsky (2005, p.7) chama de “era do vazio”. Para o filósofo“a sociedade hipermoderna é aquela em que reina a indiferença da massa, na qual domina o sentimento de repetição e estagnação, na qual a autonomia particular avança por si mesma, a sociedade é ávida por uma identidade”. O homem perdeu sua fé nas promessas da ciência moderna e da religião, se tornou um hedonista radical, se tornou um super-homem, para Fromm (1987)
O homem tornou-se um super-homem, mas super-homem com poderes sobre-humanos que não atingiu o nível de razão super-humana. Na medida em que aumentam seus poderes, ele se torna um homem cada vez mais pobre, impõe-se sacudir nossa consciência ao fato de que nos tornamos tanto mais desumanos quanto mais nos convertemos em super-homens.
Assim, o homem vive um tempo em que se sente como no mito de sísifo, rolando inutilmente uma pedra montanha acima, e vê essa pedra rolar montanha abaixo, o mito virou sinônimo de trabalho inútil, conforme Albert Camus, muito bem relatou, mas Camus (2006) nos dá um conselho pertinente, que no final é “preciso imaginar Sísifo feliz”.
O homem tem passado por um processo de desumanização que o tem levado a colocar o racional a serviço do irracional, “pois quanto mais os indivíduos se libertam das regras e dos costumes em busca de uma verdade pessoal, mais seus relacionamentos se tornam fratricidas e associais.” (LIPOVETESKY, 2005, p.45).
O individualismo surge como um mal contra o qual o homem tem lutado, e surgem então os não-lugares, a idéia de Marc Augé para não-lugar é a de uma instalação que é utilizada para a circulação de pessoas e bens, no não-lugar, não há espaço para exercitarmos nossa humanidade. No filme “O terminal” um imigrante se vê obrigado a fazer do não-lugar um lugar, um ambiente que é impessoal, um local passageiro, passa a ser um lugar onde a interação humana confere sentido.
O que se vê no filme é uma inversão, o não lugar passa a ser um lugar, o protagonista confere ao não lugar um pouco de sua humanidade, arranja trabalho, faz amizade com os funcionários, consegue uma namorada, o típico vazio que é o não-lugar agora é o lugar onde cada um se constrói sujeito de sua história. Essa transformação do não-lugar para lugar, foge totalmente do convencional; as pessoas vivem mais em não-lugares do que em casa, geralmente se almoça em self-service, assiste-se a televisão enquanto se espera sua vez no dentista, enfrenta-se a fila do ônibus na rodoviária.
O protagonista oferece solidariedade e altruísmo, instigando a socialização, o que foge da realidade dos tempos hipermodernos, um tempo de excesso e vazio existencial.
BIBLIOGRAFIA:
AUGÉ, Marc. Não- lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade. Trad. Lúcia Mucznik, Bertrand Editora, 1994.
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e paulina Watch. 3ªed. Rio de Janeiro, 2006.
FROMM, Erich. Ter ou Ser? Tradução Nathanael caixeiro. 4ª ed. Rio de Janeiro. LTC, 1987.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. Ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução Therezinha Monteiro Deutsch. São Paulo. Manole, 2005.
*Licenciado em Química e Pedagogia, Especialista em Filosofia e Química, Licenciando em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília.