segunda-feira, 12 de setembro de 2011

FELICIDADE NO AMOR CONJUGAL – Dicas para quem vai se casar.

FELICIDADE NO AMOR CONJUGAL – Dicas para quem vai se casar.
Não sei quantas celebrações matrimoniais já presenciei, mas sei que em todas elas há muita expectativa e esperança da felicidade conjugal.

A vida a dois não é simples e tão fácil quanto namorar. Ela envolve todo o ser, os sonhos e projetos.
  • Primeira coisa siga o conselho de Carlos Drumond de Andrade de não deixar o amor passar.

  • Depois olhe bem para a pessoa. Olhe enxergando tudo o que ela é, o que faz e como as faz. Tente ver como ela se conecta na vida e às pessoas e responda para você mesmo: “Me disponho a partir de agora a me entregar completamente para que essa pessoa seja feliz? Desejo fazê-la feliz e para isto empreender meus esforços, sentimentos e ações?”.
Se sim, esta pessoa é sua amada. Se não, comece de novo.

Veja quais os porquês que o impedem de assim decidir. Se for por causa de seus medos do futuro, esqueça esse medo, ninguém tem controle do futuro. Se o medo tem a ver com alguma coisa desta outra pessoa, converse sobre isto, veja se é uma parte tratável, moldável e negociável e invista nisto. Caso não haja possibilidades de mudanças, há grandes chances de você se decepcionar.
  • Feito isto e obtido a resposta positiva: - “Sim, quero fazê-la feliz”; dê mais um passo. Veja se aquele perfil, aquelas qualidades lhe fazem bem e promovem sua alegria. Veja os defeitos e analise friamente se eles não serão capazes de fazê-lo desistir de fazê-la feliz.
Se sim, você está em bom caminho para um casamento de verdade.

Conheço muitos casamentos vividos em parceiras há décadas em que não houve um casamento de fato. Uma das partes não participa integralmente.
Lembre-se, casamento é feito a dois. Impossível que apenas a entrega total de uma das partes, configure um casamento. Ambos precisam de entrega irrestrita, mesmo que aos poucos, mas completa. Não se faz um casamento em que ambos estejam interessados apenas em que o outro promova a “minha” felicidade. Isto não é amor, é egoísmo.

Amar não é algo que se recebe, mas algo que se dá.
Amar não é algo que se cobra do outro, mas algo que se entrega ao outro. Todas as vezes que alguém cobra que não se é ou não se sente amado, ele está enfraquecendo o verdadeiro sentido do amor em função de suas próprias carências.
A carência de ser amado é válida e perfeitamente natural, porém o amor se distingue da carência. Carecer de amor não deve levar a pessoa a padecer de amar. Quando se cobra o suprimento da carência está pensando em si mesmo e naquilo que não tem recebido, e amar é pensar no outro e naquilo que se tem dado como um fim em si mesmo.

Talvez alguém pergunte: - “Mas e se amo, amo e amo e não recebo de volta?” Digo que você não é amado, apenas ama. Quem ama não necessariamente receberá amor de volta, este risco é próprio do amor. Por isso é necessário saber se de fato a outra pessoa também ti ama.

Algumas pistas ajudam nisto.
Busque saber como a outra expressa o amor, pois pode ser que aquilo que você gostaria de receber como expressão de amor, seja diferente daquilo que ela entende e expressa como amor. Pode ser que ela considere estar amando, mas sua expressão não esteja lhe suprindo.
A questão, portanto, não seria falta de amor, mas a diferente compreensão do que é e como se expressa este amor.
  • Outra dica importante tem a ver com a relação com os pais.
Uma coisa simples, mas rica de significado: Filhos tem chave da casa dos pais, mas estes não devem ter daqueles. Filhos abrem a geladeira na casa dos pais, mas estes não devem fazê-lo na casa dos filhos.
Quer dizer, a orientação judaico-cristã de “deixar seu pai e sua mãe e se unir ao cônjuge” é uma ação efetuada pelos filhos e não pelos pais.

Pais sempre se “intrometerão” na vida dos filhos em nome da felicidade deles, mas os filhos devem colocar limites para isto. Mas lembrem-se, os limites são colocados pelos filhos, não pela nora ou genro.
Os pais tendem a criar os filhos para si mesmos e emocionalmente agem como uma espécie de proprietários. Os filhos se sentem protegidos e “aninhados”, mas as noras e os genros podem se sentirem invadidos; incomodados.
Estas circunstâncias tendem a afetar profundamente e de forma negativa o casamento, pois os filhos não cortando o cordão umbilical não se casam integralmente. Pais que gerenciam o casamento dos filhos, têm grandes chances de lidarem com a falência de seus “negócios”.
  • E sobre sexo?
Normalmente este assunto não é conversado, apenas ansiosamente praticado e muitas vezes às vezes. Quando não se conversa sobre ele, não gera intimidade suficiente para que amadureça.
Os ambientes em que se aprende, se é que se aprendeu, nem sempre são a partir da ideia da de um amor duradouro e da construção de um casamento, mas apenas como uma satisfação física. Sendo assim a tendência é que a compreensão da relação sexual não abarca todo o relacionamento conjugal.
As satisfações tornam-se precárias e os dois "vão levando a vida". Não abrem o jogo por puro preconceito, ou para não admitir suas ignorâncias.
Não tenha medo de ser ignorante no assunto. Tenho para mim que ninguém no quesito “relação sexual conjugal amorosa” sabe tudo. Um especialista pode saber tudo sobre sexo, mas não sabe absolutamente nada sobre o seu cônjuge e sobre você. Só vocês é que descobrirão as coisas um do outro, como veem a vida e quais coisas lhes são preciosas. Estamos falando de uma relação sexual que envolve duas pessoas com alma, emoções, carências e desejos e com um projeto de vida em comum e não de um amontoado de moléculas fisicamente necessitadas.

Entre um casal, cada um vai se descobrindo e desvelando o outro e amadurecendo para uma relação duradoura. Não conversando, ambos guardam mágoas em nome do amor e nunca atingirão uma plenitude amorosa.

A complexidade do casamento não se resolve em um pequeno texto, mas pelo menos algumas dicas podem despertar um caminho a ser percorrido.

Feliz casamento.

Eliel Batista

domingo, 11 de setembro de 2011

Meia Noite em Paris

Esse maravilhoso filme de W. Allen fala além da exuberância da cidade Luz. Fala além também da necessidade de retornar a um passado em que ainda existia vida para além das superficialidades burguesas. Fala de uma vida autêntica que tem se perdido e que pode ser recuperada em lugares especiais, com pessoas especiais, sob circunstâncias especiais.
Ele ainda ridiculariza aqueles que desejam conhecer as obras de arte, como se as mesmas representassem mais um objeto de consumo. Esses tais são os americanos.
Recomendo esse filme maravilhoso, além de recomendar também que um dia estejam em Paris verdadeiramente. Sem o olhar idiota do turista, e carregado do olhar do amante da beleza que se sacrifica até à morte pelo belo.

sábado, 10 de setembro de 2011

Beethoven - Sonata ao Luar


A Sonata ao Luar foi publicada em 1802. Nesse período, a crescente surdez de Beethoven estava começando a se manifestar e isso fez com que o compositor se isolasse do mundo. Viveu um amor impossível com uma jovem aristocrática, que pouco tempo depois se casou com um conde.
Beethoven criou a sonata procurando maior liberdade em sua composição, chamando-a sonata fantasia. Sem dúvida a música foi o maior aparo do compositor na sua trágica vida, o que é comprovado pela seguinte carta que ele escreveu a um amigo:
"Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou!"
6 de outubro de 1802

Heloísa

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Texto da aluna Gizele Almeida sobre Deleuze

Ontologia da Diferença, em Deleuze, é o nome expresso para toda uma obra filosófica que responde às questões da Univocidade do Ser, à diferença pensada nela mesma sem mediação. Assim, para dar estatuto ao Ser unívoco, em seu método de pensamento, Deleuze se inclinou para o conhecimento dos casos e das singularidades, o círculo da diferença e da repetição sem as esmagadoras abstrações da Dialética combatendo, neste sentido, as idealidades transcendentes em nome da imanência criadora de vida, conforme Bandiou (1997). De tal modo, empreende-se no projeto nietzscheniano de reversão do platonismo mostrando sua crítica a Platão e a seus sucessores que não só se opuseram a irrealidade dos simulacros como se ocultaram ante sua realidade; Deleuze vem trazer o sentido de uma valorização dos Simulacros.
O que Deleuze propõe em sua filosofia é manifestar a verdadeira motivação platônica ocultada na fórmula subversiva historiada até então, que se preocupava com a simples recusa das aparências e das essências. Assim, ele nos descreve que diferentemente de Aristóteles que visou identificar ou especificar os seres através de um conceito geral, Platão não tinha como objetivo distinguir entre o modelo e a cópia.
Platão funda o método dialético de divisão (introduzindo a ele o mito circular) no intuito de avaliar os rivais, selecionar os pretendentes que pretendiam um fundamento como princípio transcendente, uma espécie de modelo para todos os seres; e busca de forma hierárquica no nível de uma moral, submeter às quatro raízes da representação (à identidade, à oposição, à analogia, à semelhança) a Diferença encarnada no Sofista, no simulacro (o Sofista é o Ser do simulacro, o sátiro, o centauro...), ou seja, estabelecer diferença entre as cópias por meio de uma eleição participativa; a multiplicidade indefinida (os entes) vem representar aí o que deve ser eliminado para evidenciar a Idéia como linhagem pura (o Demiurgo).
Contudo, Platão tentando realizar estas proezas, faz retornar os temas pré-socráticos para a filosofia em que há um parricídio consumado e desta vez com maio evidencia, pois Platão imita precisamente aqueles quem denuncia, os falsos pretendentes. Quando quis provar a realidade do falso, precisou analisar o ser do não-ser (o simulacro não é real, o não-ser é. Mas ele também é o não-ser) traindo a si mesmo e voltando à divisão contra ela própria para evidenciar no desfecho do Sofista a força positiva em simulacros! O sofista é ironicamente confundível com o próprio Sócrates. Assim Deleuze postula: A diferença não é o negativo, todavia, o não-ser que é a Diferença. Oras, aí está à motivação platônica em evidencia, como quis Deleuze: uma potência dialética capaz de medir, ao mesmo tempo, o platonismo e a possibilidade de subversão do platonismo em função de uma verdadeira filosofia da diferença, de uma Ontologia.
O simulacro vem caracterizar um devir, mas um “devir-louco”, sem limite, um devir outro, capaz de subverter profundidades enquanto se esquiva do igual, do semelhante, do limite se constituindo simultaneamente mais e menos sem igualdade, um estado de signo na lógica do eterno retorno. Eterno retorno ao caos que destrói e traga instâncias que colocam a diferença entre o originário e o derivado, a coisa e os simulacros, não permitindo qualquer instauração de uma “fundação-fundamento”. Deste modo, não há mais seleção possível diante do movimento que complica todas as séries, que se dispõe de uma lei que faz todas voltarem em cada uma, subsistindo a identidade. Esta ultima, passa a ser simulada, assim como o mesmo e o semelhante, diante do funcionalismo do simulacro com seu condensado de coexistência e simultâneos acontecimentos.
Assim, a Ontologia da Diferença considera uma só proposição ontológica: “o Ser é Unívoco”.  Este se diz em um só sentido para todas as coisas de que se diz.  Portanto, o designado é o mesmo para sentidos distintos em suas qualidades e o sentido é o mesmo para os modos numericamente distintos, sejam eles individuantes, designantes ou expressantes. Suceder como acontecimento único para tudo que se sucede nas coisas mais diversas é a atuação da univocidade do Ser. Ela é puro acontecimento e puro sentir. Logo, todos os acontecimentos comunicam em um único que é o Ser (o clamor do Ser). Portanto, todo questionamento de Deleuze se direciona ao Uno, ao Ser tornando o múltiplo pensável como produção de simulacros. Quando não há mais causa distanciada, hierarquizada: “o rochedo, a flor de lis, o animal e o homem cantam igualmente a glória de Deus em uma espécie de anarquia coroada”, nas praias de pura imanência.
É possível aí a fluidez dos movimentos imanentes como aquilo que engendra retroações, conexões, proliferações na fractalização, na curvatura de um plano, na infinidade infinitamente redobrada, que faz do pensar e ser uma só coisa. Eis que atravessar as hierarquias por praias de imanência significa então – para inventores e criadores de modos de vida – ressoar em liberdade a potência de um duplo construtivismo filosófico: criar conceitos e traçar um plano. A vida do individuo passa a dar lugar à uma vida impessoal em favor de uma singularidade, que mesmo sem nome o homem não é substituível nem confundido com nenhum outro.
Neste sentido que experimentamos, no teatro da repetição (no eterno retorno), forças puras, traçados dinâmicos que agem sobre o espírito, sem intermediário, unindo-o diretamente à natureza e à história; também experimentamos uma linguagem que fala antes das palavras, gestos que se elaboram antes dos corpos organizados, mascaras antes das faces, espectros e fantasmas antes dos personagens – todo o aparelho da repetição como “potencia terrível”.
Este é o convite deleuzeano, atuar no verdadeiro teatro, onde tudo é simulado em superposição de máscaras. Estas fazem referencia ao verdadeiro movimento (repetição), através do qual o ator desempenha um papel que desempenha outros papéis. Pois a ontologia se confunde com a filosofia, que por sua vez se confunde com a univocidade do Ser que igualmente é imanência, sendo também aquela que gera a circulação da diferença em repetição, para dar legitimidade ao incerto, ao acidental, ao divergente como signos de expressão da essência do Ser, o simulacro em seu valor positivo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Rubem Alves: a escola ideal

Olá queridos,
Por indicação do nosso amigo Alfredo, posto esse excelente vídeo, bem curtinho. Ele se aplica muito à aprendizagem em EAD.
beijos...

domingo, 4 de setembro de 2011

Hymne a l'amour

Parole de L'hymne à L'amour:
Le ciel bleu sur nous peut s'effondrer
Et la terre peut bien s'écrouler
Peu m'importe si tu m'aimes
Je me fous du monde entier
Tant qu'l'amour inond'ra mes matins
Tant que mon corps frémira sous tes mains
Peu m'importe les problèmes
Mon amour puisque tu m'aimes

J'irais jusqu'au bout du monde
Je me ferais teindre en blonde
Si tu me le demandais
J'irais décrocher la lune
J'irais voler la fortune
Si tu me le demandais

Je renierais ma patrie
Je renierais mes amis
Si tu me le demandais
On peut bien rire de moi
Je ferais n'importe quoi
Si tu me le demandais

Si un jour la vie t'arrache à moi
Si tu meurs que tu sois loin de moi
Peu m'importe si tu m'aimes
Car moi je mourrais aussi
Nous aurons pour nous l'éternité
Dans le bleu de toute l'immensité
Dans le ciel plus de problèmes
Mon amour crois-tu qu'on s'aime
Dieu réunit ceux qui s'aiment

sábado, 3 de setembro de 2011

Texto sobre Heschel: filósofo e teólogo judeu

O significado da teologia profética na filosofia judaica de J. Abrham Heschel
            Para compreendermos a profundidade do chamado profético é preciso que tenhamos em conta a profundidade dada pelo povo judeu à idéia de justiça: ora, compreender a justiça que o homem deve com relação aos outros homens deve lembrar a infinita misericórdia de seu Senhor. Ser justo é reflexo do amor infinito e primordial que o homem deve ao seu Senhor, mas, ao mesmo tempo, o temor profundo que lhe deve. Tanto o homem que obedece aos justos ditames por amor a Deus, tanto aquele que os obedece por temor, cumprem com o seu dever, pois agem de acordo com a justiça. Portanto, antes de falarmos propriamente de profecia, é preciso falarmos do conceito de justiça, tal como se encontra no judaísmo.
             Quando olhamos a estátua da justiça, que nos promete um tratamento isonômico, igualitário a todos os homens, sentimos tristeza porque essa estátua promete algo que não é cumprido. Sabemos que a justiça não é aplicada a ricos e pobres e que justamente são os pobres os que lotam as casas de detenção e são também os pobres que não encontram chance de reconstruir suas vidas quando saem das penitenciárias. Ora, o ideal de justiça oferecido pelos profetas bíblicos, fato enfatizado por Heschel, jamais poderia ser conivente com essas anomalias. Assim, há um uso extremamente positivo da imaginação no patos profético: os olhos não estão vendados, mas extremamente abertos à violência feita aos outros, aos pobres, aos marginalizados.
            Segundo Heschel, justiça social foi a mensagem principal dos profetas bíblicos. Há um forte contraste entre a imagem da justiça em sua calma e serenidade e a imagem de justiça oferecida por Heschel: a justiça de que falam os profetas é intensa, é uma arrebatadora correnteza que nos arrasta e que exerce seus poderes de maneira violenta. Os moralistas cantam o valor da virtude, do amor. Os profetas, de outro lado, falam da injustiça, da opressão. Os moralistas são a expressão da consciência dos homens: expressam seus valores, suas convicções. Os profetas, do contrário, expressam as verdades indigestas, as quais ninguém quer ser lembrado, justamente porque expressam a raiz profunda do pecado. Mas eles falam justamente para os que sedentos, clamam por justiça. “Você não deve afligir qualquer viúva ou órfão... Se você os afligir eles clamaram a mim e Eu certamente ouvirei o seu clamor”. (Êxodo 22, 22-23). Ao matar o irmão Abel, o Senhor Deus lembra a Caim não que ele descumpriu o preceito, mas que o sangue de seu irmão está clamando por justiça.
            E aqui, vem a grande distinção entre o Deus de Abrão, Isac, Jacó, Jesus Cristo, o Deus a quem Pascal devota amor e o deus dos filósofos, a quem Pascal devota desprezo. A perda da devoção ao Deus pessoal, perda essa que tem Espinosa como um de seus principais articuladores, significa para filósofos como Heschel, a perda do sentido de justiça, compaixão e misericórdia bíblicos. Para o judaísmo não somos enquanto não somos reconhecidos como uma pessoa. Na filosofia de Levinas, por exemplo, é o outro quem me constitui. Só sou um ser humano depois que ouço o seu apelo. Não haveria substituto para esse Deus que desse conta do mesmo recado: o Deus idéia, fruto do racionalismo filosófico, não apenas não ouve nossos apelos, mas também não nos castiga por nossas injustiças. Ele funciona como o agradável refúgio de nossa apatia: não precisando nos comprometer com os homens, podemos nos abandonar no amor a uma idéia, a qual não exige nada de nós. Isso porque esse Deus não é capaz de nos lembrar acerca delas. Ou seja, mais do que nos lembrar da possibilidade do castigo, mais do que nos prometer o céu ou o inferno, o Deus profético nos lembra acerca de nossas obrigações para com nossos irmãos. Por isso a justiça é superior ao amor: aquilo que não podemos fazer por amor, façamos então por temor da injustiça. Amor pode denotar um favor, mas justiça denota um dever. Assim, só é válido o amor como mandamento, como dever. Superar essa imagem nos possibilitará uma motivação para a justiça com efeitos similares ou superiores àqueles que foram obtidos pelos profetas?
            Contra a serena neutralidade do Deus dos filósofos, o Deus dos judeus é um Deus que acorda quando ouve o clamor de seu povo. Não é a estabilidade e a permanência o que interessam nesse apelo: o que importa é a pessoalidade, a empatia com o sofrimento. Quem sofre, onde está a dor? Essa é a pergunta ética. Ela não se vale por preceitos: mede-se pela sensibilidade. Daí que o que vale na narrativa bíblica é sua vitalidade e dinamismo: onde está a dor, ai está o Deus. Onde não há mais possibilidade de vida, a vida acontece. Isso porque a vida é justamente a sensibilidade. Não há ética sem esse sentido profundo de sensibilidade. Pensar é, sobretudo, e antes de tudo, sentir.
            No entanto, não nos parece que esse sentido profundo que relaciona pensamento e afetividade estejam separados na filosofia de Espinosa. Sua filosofia é uma filosofia cujo ápice é o amor a Deus. Seu Deus, sendo a totalidade da Natureza, exige um sentido de amor que é união com todos. A ontologia de Espinosa é uma ética, como ele mesmo diz: falar sobre o Ser é poder agir de modo a expressar o máximo amor que é capaz a potência pensante. Não seria Espinosa, nesse sentido, tão parecido com os judeus (já que ele mesmo é um judeu!)?. O Deus de Espinosa não é um Deus a quem chego não apenas por um desejo sincero de compreender, mas por um anseio imenso de amar infinitamente. Apenas Deus é quem sou capaz de amar sempre mais e mais, porque quanto mais eu O compreendo, inevitavelmente mais eu O amo. Lembremo-nos que no início do Tratado da Reforma do Intelecto é o desejo de amar quem impulsiona Espinosa em sua busca filosófica. Afinal, a filosofia é antes de tudo, uma forma elevada de amor.
            Mas não basta a motivação amorosa. Podemos amar aquilo que nos alivia, que não exige de nós sair de nossa zona de conforto. Aliás, é isso o que geralmente amamos. O recado profético é indigesto porque ele avança na zona da contracultura. Toda cultura quer se auto-celebrar e esconder tanto seus algozes, quanto suas vítimas. Assim, ela pode até gerenciar atos de caridade e solidariedade, mas não aceita a possibilidade de ver suas injustiças desveladas. O patos profético, ao anunciar a injustiça, revela uma forte potência imaginativa para anunciar outra ordem, fundada sobre a justiça divina. Assim, a imaginação profética parece ter um papel mais forte e poderoso do que a autoconsciência lúcida celebrada pelos filósofos. Essa imaginação consegue detectar o grito de dor dos que sofrem melhor do que a consciência filosófica, que é a primeira a destilá-los como malucos e traidores. Isso desmantela a ordem social vigente, exigindo uma nova ordem por vir. 
            A potência imaginativa também foi estudada por Espinosa. De fato, quem controla a imaginação das pessoas, é quem detém o poder político. Espinosa mostra que o perigo da imaginação reside no fato dela não se capaz de por si mesma auto revelar-se como verdadeira ou falsa. Daí que ela possui tanto um poder de coesão, como de dispersão. Mas a imaginação é tão humana, que dela jamais nos libertamos. Daí que seja necessário que essa potência seja regida pela intuição intelectual. Orientar-se pela intuição intelectual é pensar por inteiro, de corpo e mente: é pensar sentindo, necessariamente. Destarte, não seria justo acusar Espinosa de um escapismo estóico, como se fosse possível ao homem subtrair-se de suas paixões. O que podemos, no caso de Espinosa, e também no caso da profecia, é não cair na tentação do desespero, arma do inimigo. Assim, esse apelo imaginativo profético tem o seu valor porque exige de nós superar essa tristeza e caminharmos em direção aos outros, o que já é uma atitude alegre. De qualquer modo, a imaginação em si, sendo uma potência do corpo, é positiva. Podemos sim usa-la de modo a suscitar em nós paixões que possibilitem a vida social. O exercício da piedade é válido. No entanto, preferível a ele, pode ser o imaginar-se no lugar do outro. Esse imaginar-se no lugar do outro não é uma neutralização da alteridade e da singularidade de outra pessoa. Mas imaginar-se justamente numa situação desfavorável, como estrangeiro, como sem teto, sem dinheiro, sem comida, sem oportunidades de conservação da própria existência. A imaginação tem um grande papel socializante, porque ela pode justamente mostrar o outro como expressão finita de Deus, o que compreendemos pela inteligência. 
            Os profetas nos lembram que sempre que reduzo os que gritam ao silêncio, estou legitimando a opressão. Lembram-nos também que a verdadeira crítica é a verdadeira ética: é prestar-se a cuidar dos que gemem. O verbo hebraico gritar, Za’ak, nos lembra   para expressar tanto o gemido e lamento, como serve também no sentido de apresentar uma queixa legal. Aliás, fato semelhante ocorre no português: queixar-se tanto é lamentar-se, como apresentar uma queixa com valor judicial. De qualquer modo, a queixa se relaciona com o sentimento de injustiça e com o desejo de reparação. Ouvir o grito dos que foram reduzidos ao silêncio é fazer uma crítica verdadeira, mostrando que as coisas não estão dando certo.
Rochelle

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Entrevista com Clarice Lispector

O filme trata-se de um documentário com pitadas de ficção, onde a personagem principal é Clarice Lispector, em encontros com as mais variadas personalidades.

Clarice dá uma aula de interação jornalística ao mergulhar poeticamente no mundo de pessoas, entre elas um cantor, um psicanalista, um escritor, uma pintora e outros.

O filme revive as entrevistas conduzidas pela escritora Clarice Lispector publicadas nas revistas "Manchete" e "Fatos & Fotos" nos anos 1970. Dentre os entrevistados, personalidades como Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Tônia Carrero, Nélida Piñon e Oscar Niemeyer.

Adaptação do livro 'Entrevistas com Clarice Lispector'.

Gênero:Documentário/Ficção

Direção: Nicole Algranti

Elenco:

Aracy Balabanian
Dora Pellegrino
Letícia Spiller
Beth Goulart
Franco Almada
Jayme Cunha
Fernando Eiras
Giovanna de Toni
Louise Cardoso
Hélio Pellegrino
Sílvia Buarque
Jofre Rodrigues
Karan Machado
Rita Elmor
Paulo Vespúcio

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dvorak - terceiro movimento da sétima sinfonia, em ré menor


A Sétima Sinfonia de Dvorak foi concluída no ano de 1885 e foi publicada em Londres. A obra vem carregada da paixão que o compositor tcheco sentia pela pátria, o que ele deixava  sempre  muito claro.
Além de patriota, Dvorak gostava de viajar, englobando sempre novas culturas em sua música. Podemos perceber isso na sua obra mais famosa: a "Sinfonia do Novo Mundo", escrita quando o compositor morava nos Estados Unidos.
A amizade entre Dvorak e Brahms foi algo que serviu de inspiração para a obra de ambos os compositores, que se gostavam muito. A Sétima Sinfonia de Dvorak foi uma de suas obras mais românticas, sendo muito admirada por Brahms, que publicou sua quarta sinfonia pouco tempo depois da publicação da presente sinfonia.
Heloísa

Le Grand Voyage

História de um pai e um filho que viajam de carro da França até Meca. Filme excepecionalmente lindo. Sua versão integral está disponibilizada no You Tube.
beijos...